Sábado, 12 de Março de 2011

Tem-me irritado um pouco a conversa do jovem bem sucedido quanto à manifestação de logo. Sim, ainda bem que existem pessoas com nível de vida condizente com o seu valor, com a sua formação, com a sua capacidade. Pessoas capazes de comprar malas e sapatos a rodos, ir de férias a cada mês para um qualquer sítio gourmet em Portugal ou no mundo, pessoas com carros e casas do melhor e roupas. Pessoas que até se podem gabar de terem ajuda dos pais, porque também há muita gente independente de fachada e depois o que acontece é terem a rede por baixo. Se isso é o conceito de realização deles, quem serei eu para contestar.

Mas hoje em dia só não vemos a desgraça no mercado de trabalho se não quisermos. Se não nos interessar ver, se for mais fácil e alternativo ser jovem e declarar que se lutou muito para ser bem sucedido e como tal se todos lutarem conseguirão. Não é verdade. Não é. Porque há muita gente que luta, porque tem família para sustentar, casa para pagar, e tem que se sujeitar a empregos precários. Outros nem isso têm. Mas o facto de se ter que trabalhar em dois ou três sítios para complementar um emprego não será por si só precariedade?

Os jovens que ali vão não são todos os mandriões que se encostam aos pais para terem carros e sapatos e viagens. Os jovens que ali vão não são os Deolindos, os da luta, o que querem chamar para desvirtuar um protesto que é mais que legítimo.

O mal deste país, além da classe política, é a mentalidade. É a mentalidade dos que protestam e o fazem sem saber ao que vão, sem sentido de cidadania, mas também a mentalidade dos outros a quem o problema não toca e acham que é tudo parvo e pateta. Os cidadãos virados uns contra os outros, cada um a olhar para o seu umbigo. Ninguém quer pagar impostos, ninguém quer ser fiscalizado na estrada e multado quando faz asneiras, ninguém quer ver os seus direitos cortados mas também não suporta a ideia de ter deveres. E sobretudo, ninguém vê os problemas dos outros e para muita gente a pobreza só incomoda quando se planta a pedir na soleira da sua porta porque atrapalha a entrada. É assim que a comunicação social tem tratado este protesto e que as pessoas, inclusivamente da nossa geração, se manifestam num desabafo paralelo tentando desvalorizar.

E mais uma vez ressalvo, eu admito falhas na nossa geração e sou a primeira a temer que se aproveitem as patetices que certas pessoas irão dizer hoje - estou a ver já o tipo de reportagens que irão fazer, a sério que estou. Mas nada disso tirará a legitimidade do protesto. Porque se se derem ao trabalho de ler o propósito dele e deixar para lá os sensacionalismos das músicas e de festivais da canção e variedades talvez percebam melhor do que se fala. Já que, felizmente, e digo isso com sinceridade, têm a oportunidade de viver bem melhor que a maioria das pessoas da nossa geração e que lutam igualmente mas não conseguem ou não têm a mesma sorte.

Este protesto não resolverá as questões de fundo, não resolverá nada até porque o deita-abaixo já é tanto que vai servir apenas para ocupar a tarde de hoje nas televisões. Mas é um sinal de vida e quem sabe um começo para que as pessoas alterem um pouco a sua mentalidade e percebam que este país é de todos. E deveria ser para todos. Mas não. 

Isto é um texto escrito após ter lido alguns textos aqui pela blogosfera. Não é de ataque a ninguém em especial, mas ataque a uma mentalidade com a qual não concordo. E tenho esse direito.

4 Comentários:

Kuka disse...

Se não te importas vou fazer uma referência ao teu texto no meu blogue com as devidas informações de onde o tirei. Porque concordo inteiramente com ele e tenho muita pena mesmo que haja pessoas que só vem um lado da situação.

ana disse...

Claro que não me importo :) Obrigada pela tua visita e comentário.

Rafa disse...

Cara Ana, tenho vindo aqui com alguma regularidade. E gosto mesmo muito. É interessante esta questão da manifestação. Eu não fui. Tive amigos íntimos e importantes que foram. E tive amigos íntimos e importantes que não foram. Não me identificava com a salganhada que acabou por ser (miúdos do liceu a dizerem que não querem pagar senhas da cantina; os gays e lésbicas a defender os seus direitos; os velhotes a relembrarem o 25 de Abril). Aquilo devia ter sido direccionado para um tema em particular e não um freak-show.

Inicialmente quis escrever sobre o porquê de não ter ido. Depois li isto e fiquei quase comovida, pois foi o melhor texto que li na blogosfera sobre o assunto (de quem era a favor). Mesmo assim, passados uns dias resolvi escrever, não sobre o porquê de não ter ido, mas sobre alguns amigos especiais meus que não foram.

E olha, custou-me 3 "amigos" no Facebook, que me desamigaram na sequência.

Viva o fair-play. :)

Um abraço e cá te continuarei a seguir, concordando ou não.

ana disse...

Rafa, aquele cliché que se costuma utilizar tem que passar disso mesmo: a liberdade de uns termina quando a de outros começa. E greves e manifestações são sinais da democracia mas não podemos esquecer que existe o outro lado. Aqueles que não concordam por algum motivo especial e argumentativo e aqueles que concordando não querem simplesmente ir a uma manifestação ou participar numa greve. Eu respeito, todos devemos respeitar. Não tem que existir «desamiganços» por causa disso, não sou assim fundamentalista, nem discriminação. São opções. Por isso, nem se trata de fair play, trata-se de usar a democracia a nosso favor mas também a favor dos outros que também têm direito a ela.

Eu só expressei a minha opinião em relação a generalizações e a colagem de rótulos como vi fazer.

Todas as discussões de ideias são produtivas, na minha opinião. Sabendo os limites. Por isso aceito os argumentos dos outros. O pior que pode acontecer é ter que os refutar com aquilo que são as minhas opiniões, que me parecem mais lógicas.

Volta sempre. Eu fui ler o teu texto e lá comentarei :) Um beijinho e obrigada pelas tuas palavras