Há uma coisa que tenho vindo a perceber com a sucessão destes casos na senda pública: nunca conseguirei olhar para eles com racionalidade, sem o coração, e nunca conseguirei ver com bons olhos o trabalho dos advogados que aceitam defender estes arguidos. Não consigo efectivamente ser objectiva em casos que mexem com a vida das pessoas como este mexe com a vida daquela mãe. Ela morre aos poucos, à frente dos nossos olhos.
Este caso já foi discutido aqui em casa várias vezes e nos pratos da balança está uma visão mais crua e a minha visão. Um homem inocente não se calaria, sentiria o peso que é carregar com uma culpa aos olhos de todos - até da própria família, quiçá - e sentiria que falando poderia ajudar aquela mãe que sofre. Nas barras dos tribunais não se jogam milhões como na bola, não se lançam estratégias assim, a meu ver. Mas na realidade é mesmo assim. Um advogado que trabalha para um presumível culpado tem várias hipóteses de defesa e esse é o seu trabalho. Friamente, independentemente do que está do outro lado, o trabalho do advogado do Afonso Dias foi tentar deitar por terra os testemunhos que o colocavam naquele filme.
E cada um faz o seu trabalho, a sua obrigação. Ainda que no final, tudo junto, nos pareça a maior injustiça à face da terra. Como este caso me pareceu, a mim que o vi da varanda do meu coração. E muitas vezes me insurjo contra estes advogados. Eu não seria capaz. (Por isso é que se calhar não enveredei pela área, não sendo capaz seria uma má profissional.)
E então ando nesta dicotomia na minha análise do caso. Quem tem culpa disto tudo? E a única resposta que obtenho é que as únicas pessoas que não têm culpa é que estão a pagar com a vida. Fico devastada com as imagens daquela senhora.
Mas penso que deveria ser revista a parte da lei em que se dá direito a uma pessoa de permanecer calada. Não me perguntem como fazer isso mas por vezes, em certos casos, tenho vontade que se volte à idade média. Porque o fim de tudo isto deveria ser a justiça realmente justa. E continuo a achar que um inocente nunca se calaria.
5 Comentários:
Concordo com o que diz. Esta mãe está a morrer aos poucos, o pai está a sofrer, a irmã tem sofrido imenso com tudo, a avó, o padrinho... e não sei como é que ainda têm forças para enfrentar tudo isto. Mas o que lhes dá força é certamente a luta com que se debatem todos os dias. Têm de sentir que fazem alguma coisa, todos os dias! E um inocente não ficaria calado, ele sabe alguma coisa ou fez alguma coisa. Pode até nem ser o culpado, mas terá algo que está a esconder ao longo de anos e que agora tem medo e vergonha de falar. Muito se diz deste caso, muito é mentira e especulação, mas a verdade está escondida a sete chaves... como este outros casos mediáticos têm-me deixado perplexa. O último, o da família assassinada pelo homem que devia ter o dever de as proteger. Inocentes vítimas de algo que, perante os meus olhos, é completamente inexplicável.
A senhora não vive, apenas sobrevive.
(anocas, querida, a ti é permitido. A ti e a I. :) Vocês são as minhas queridas mais recentes.)
Um homem inocente não se calaria. Esta é boa, muito boa. sobretudo quando se sabe que depôs diversas vezes em sede de inquérito.
Por outro lado, talvez seja útil saber que quem acusa é que tem que provar e criar a convicção ao tribunal.
Claro que, deduz-se, o ideal era que fosse condenado, com ou sem provas. Para alguns é isto a justiça: criada a convicção por jornais e telejornais, o tribunal deveria condenar. Porque parece que os tribunais devem ir atrás das emoções de quem assiste, sentado no sofá...
A. Moura Pinto, respeito a sua opinião e vai precisamente de encontro ao que disse quando ressalvei que não consigo ter a racionalidade suficiente para ajuizar o que quer que seja em relação a este e outros casos. Não estou com isto a culpar alguém, que eu saiba. Se deduz isso, deduz mal.
Não me viu a dizer que a sentença foi mal dada, eu quis falar mesmo nessa dicotomia na minha análise. Entendeu agora?
Acrescentando, já que tive que sair e ficou a meio.
Todos nós para evoluirmos precisamos de conhecer-nos, saber as razões dos nossos pensamentos e saber, principalmente, onde erramos. Este texto não foi nem mais nem menos que isso. E é apenas a construção de um raciocínio ainda, precisamente, nessa fase: de construção.
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